Hora de Parar o Coração

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O primeiro comprimido desceu a garganta de Victor, ele esperava alguma reação, novidade ou sintoma, mas nada aconteceu. Os dias passavam e nada mudava. O segundo, o terceiro, e a coragem de engolir mais comprimidos aumentava.

“Você está louco! Por que está se dopando cada vez mais?” – questionava-lhe o pai. E Victor tinha uma resposta – “Eu não quero sentir dor!”. Contudo, as pílulas não mudavam nada, era a mesma coisa: infeliz e solitário buscando o alivio de uma dor na alma.

Os fones nos ouvidos tocavam “Passing Afternoon” de Iron & Made, olhos fechados, enquanto naquela manhã o ônibus o levava para o fatídico emprego. As pálpebras de Victor tremiam conforme o embalo do autocarro pelas ruas esburacadas. Feixes de luz do sol penetravam-lhe as córneas e revezava com a escuridão das sombras nas árvores ao passo dos quilômetros percorridos. Nada o preocupava e nem incomodava naquela viagem.

A quantidade de passageiros no ônibus estava entre cinquenta a sessenta. Todos gritaram, exceto Victor que não demonstrara nenhuma feição. Das luzes e sombras penetrantes em suas pálpebras, um clarão definitivo, como a do fim do túnel para um moribundo. O autocarro estava tombado na pista com as ferragens destruídas. O acidente entre um caminhão e aquele ônibus metropolitano era noticiário para o dia todo.

Em algum lugar onde as nuvens podiam ser apalpadas, num jardim florido, lembrando o Jardim do Éden ou os Campos Elíseos da Mitologia, Victor admirado caminhava sozinho até que, avista um quiosque e nele havia uma bela moça sentada no banco de madeira. Ele se dirige até ela.

– Eu… Eu estou morto! Mas o que você está fazendo aqui, Lilian?

– Ainda não chegou a sua hora! – Ela responde sem hesitação.

– Nos vimos na semana passada, nos despedimos e você estava muito feliz com o preparatório de seu casamento – Ele se perturba.

– Eu vim para dizer que ainda não chegou a sua hora, você deve voltar.  Quanto a mim, eu não morri, fique tranquilo! – Lilian o acalma.

– Ah… Eu entendi! Você é o que os cientistas falam de última reação química do cérebro, a minha última visão, não é?

– Victor, você não acredita nisso como um milagre divino? – Lilian abre um belo sorriso.

Paralelo à inconsciência de Victor, jovens médicos tentavam reanimar o moribundo.

– Rápido, o desfibrilador… Se afastem! Um… Dois… Três.

O corpo recebe a carga elétrica das placas e no impacto salta na maca do hospital. Uma… Duas e três vezes.

– Eu quero ficar aqui… Não posso voltar, aqui não dói e… Eu… Não quero sentir dor… Eu não quero ser infeliz! – Victor em tom de lamento.

– Bom… Nem sempre se tem o que se quer! – responde Lilian, a amiga que ele amava e que estava para se casar com outro.

Os médicos corriam pela vida do rapaz. “Aumenta mais a pressão!” diziam.

– Os batimentos estão voltando! A oxigenação está boa!

O pai de Victor cruzava as mãos em forma de prece e suspirava “Graças a Deus!”.

A noticia chegava pouco depois da oração.

-Seu filho passa bem, será uma recuperação gradual. Cuidaremos para que ele não sinta dor.

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